A árbitra sul-mato-grossense Daiane Caroline Muniz dos Santos, natural de Três Lagoas, ganhou projeção nacional nos últimos dias não por sua atuação em campo, mas por ter sido alvo de declarações machistas após uma partida do Campeonato Paulista.
As críticas partiram do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, depois da derrota por 2 a 1 para o São Paulo Futebol Clube, resultado que eliminou a equipe da competição estadual. Em entrevista concedida logo após o apito final, o defensor questionou a presença de uma mulher na arbitragem de um confronto decisivo e colocou em dúvida a capacidade profissional da árbitra com base em seu gênero.
A fala provocou reação imediata nas redes sociais e entre dirigentes do futebol, sendo classificada como preconceituosa e incompatível com os princípios do esporte.
Trajetória consolidada
O episódio contrasta com a carreira construída por Daiane ao longo dos últimos anos. Em 2020, ela entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a comandar uma partida do Campeonato Sul-Mato-Grossense masculino como árbitra principal. Posteriormente, passou a integrar o quadro da Federação Paulista, atuando como árbitra de vídeo (VAR) em competições nacionais.
Sua experiência também ultrapassa as fronteiras do país. Em 2022, trabalhou como assistente de vídeo na Copa do Mundo Feminina Sub-20, realizada na Costa Rica. No ano seguinte, repetiu a função na Copa do Mundo Feminina de 2023, reforçando sua presença em eventos de grande porte no cenário internacional.
Clube pede desculpas e promete apuração
Diante da repercussão negativa, o Red Bull Bragantino divulgou comunicado oficial repudiando o teor das declarações do atleta e reforçando pedido de desculpas à árbitra e às mulheres. Segundo o clube, Gustavo Marques esteve no vestiário da arbitragem, acompanhado do diretor esportivo Diego Cerri, para se retratar pessoalmente ainda no estádio.
A direção informou que Daiane aceitou as desculpas, mas destacou a gravidade do ocorrido e a responsabilidade que jogadores devem assumir, mesmo em momentos de frustração após eliminações. O clube também anunciou que avalia possíveis medidas disciplinares internas.
Federação classifica fala como misógina
A Federação Paulista de Futebol manifestou “indignação” com o episódio, classificando as declarações como machistas e misóginas. A entidade ressaltou que conta atualmente com dezenas de mulheres em seu quadro de arbitragem e afirmou ter orgulho da atuação feminina no futebol paulista.
A Federação informou ainda que encaminhou o caso ao Tribunal de Justiça Desportiva, responsável por analisar eventual denúncia e aplicar possíveis sanções. Como as declarações ocorreram após o encerramento da partida, não houve punição imediata no campo de jogo.
O episódio reacende o debate sobre a presença feminina em funções historicamente ocupadas por homens no futebol e reforça a discussão sobre respeito, igualdade e responsabilidade no ambiente esportivo.


















