A retração das importações brasileiras de gás natural da Bolívia não compromete o abastecimento em Mato Grosso do Sul, mas redesenha o mapa energético do Estado. Nesse novo cenário, Três Lagoas ganha protagonismo, especialmente com a expectativa de instalação da fábrica da Bracell, que poderá se tornar um dos principais vetores de expansão do consumo de gás natural na região.
A presidente da MSGás, Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt, afirma que a queda nas importações do gás boliviano não representa risco de desabastecimento. O consumo médio do Estado gira em torno de 500 mil metros cúbicos por dia, volume considerado pequeno dentro do sistema nacional de transporte.
Queda da Bolívia e avanço da produção nacional
Dados da Petrobras mostram que, em 2025, as importações de gás da Bolívia recuaram para 9 milhões de metros cúbicos por dia, abaixo dos 13 milhões registrados no ano anterior. Em contrapartida, a produção nacional atingiu 34 milhões de metros cúbicos diários, impulsionada pela ampliação das operações no pré-sal.
A Bolívia, que já exportou até 30 milhões de metros cúbicos diários ao Brasil por meio do Gasoduto Brasil-Bolívia, enfrenta declínio produtivo após anos de baixos investimentos. Mesmo assim, o fornecimento aos consumidores sul-mato-grossenses segue garantido por meio da diversificação de fontes.
Impacto na arrecadação
A redução do volume importado impacta a arrecadação estadual, já que o ICMS sobre o gás boliviano chegou a representar parcela significativa das receitas de Mato Grosso do Sul. Levantamento divulgado pelo Comsefaz aponta que o desempenho real do ICMS do Estado em 2025 apresentou retração em comparação ao ano anterior, refletindo um ambiente econômico menos favorável.
Apesar disso, a estrutura de distribuição permanece sólida e preparada para atender novos projetos industriais.
Bracell no centro da expansão
É nesse contexto que a Bracell surge como peça estratégica. A empresa estima investir até R$ 25 bilhões na construção de uma fábrica de celulose em Bataguassu, com capacidade aproximada de 2,8 milhões de toneladas por ano. A expectativa é que a unidade utilize gás natural em larga escala.
A conexão da futura planta à malha estadual deverá ocorrer a partir de Três Lagoas, consolidando o município como eixo central da distribuição de gás no Estado. A cidade já desempenha papel fundamental no fornecimento energético para grandes indústrias do setor de celulose.
Além da Bracell, a expansão da rede inclui o ramal de 125 quilômetros que levará gás natural até a unidade da Arauco em Inocência, reforçando a vocação da região como corredor energético-industrial.
Diversificação e novas fontes
A estratégia da MSGás também contempla diversificação do suprimento. A companhia recebeu autorização para importar até 150 mil metros cúbicos diários da formação de Vaca Muerta, na Argentina, ampliando as alternativas diante da queda boliviana.
Com a consolidação do mercado livre de gás e a chegada de novos empreendimentos, Mato Grosso do Sul deixa de depender exclusivamente do gás importado e passa a estruturar uma matriz mais flexível.
Com investimentos bilionários previstos e expansão da infraestrutura a partir de Três Lagoas, a possível instalação da Bracell marca uma nova etapa para o setor energético estadual, fortalecendo a cadeia produtiva e posicionando o município como referência no fornecimento de gás natural para grandes projetos industriais.


















